Missão impossível: perfeição

Perfeição. Esta é uma palavra que talvez não deveria estar no vocabulário humano. Afinal de contas, nada neste mundo é perfeito. Perfeição — refere-se à ausência de faltas em sua forma mais usada — é algo de outro mundo para humanos falíveis. Será? Não é de admirar que os cristãos arranjem subterfúgios para este termo e para as suas implicações soteriológicas? O que é possível para nós? O envelhecido Abrão aproximava-se do marco centenário quando Deus lhe chamou para ser perfeito: “Sendo, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o Senhor a Abrão, e disse-lhe: ‘Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em Minha presença e sê perfeito'” (Gênesis 17:1).

Suponha que um dia Deus fale com você e lhe diga para ser perfeito. Como você se sentiria? Pressionado? Pensaria que Deus estivesse de brincadeira com você? Certamente que o Deus que esteve presente na ocasião em que Eva mordeu aquela fruta saberia o quão impossível é ser justo, que dirá perfeito.

Alguns milhares de anos depois Jesus pediu o mesmo daqueles que clamam ser descendentes de Abraão: “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos Céus” (Mateus 5:48).
Portanto, por que tanta confusão acerca da perfeição? Bem, muitos cristãos crêem que a busca pela perfeição seja contra o evangelho da salvação pela graça. Desde que Martinho Lutero e os reformadores pregaram a “sola fide” em oposição à teologia da salvação pelas obras ensinada pela Igreja Católica, uma veemência geral passou a existir no cristianismo protestante contra aqueles que pregam que é possível ser perfeito. Na verdade, isso fez com que John Wesley, o grande líder metodista, se perguntasse:

“Por que deveria qualquer homem de razão e religião temer ou ser avesso à salvação de todos os pecados? Não é o pecado o maior mal deste lado do inferno? E se é assim, não se segue que uma total libertação disso é uma das maiores bênçãos deste lado do Céu? Quão ansiosamente, então, deveriam todos os filhos de Deus orar por isso! Por pecado eu quero dizer transgressão voluntária de uma lei conhecida. Você é avesso a ser liberto disso? Você tem medo dessa libertação? Você ama, então, o pecado que você está tão pouco disposto a deixar?” (Wesley, 176).

O debate sobre a perfeição ser possível tem também várias implicações no debate do papel da lei versus a graça na salvação. (Afinal de contas, perfeição é em geral entendida por muitos como o perfeito cumprimento da lei). Portanto, é fácil ver as objeções e razões comuns porque muitos têm repugnância à palavra perfeição quando discutem teologia. A única ocasião em que a palavra perfeição é usada sem qualquer hesitação é quando as pessoas se referem a Jesus Cristo, o perfeito Filho de Deus que nunca cometeu pecado.
Muitos têm aversão a evitar o pecado. Um blogueiro disse: “Uma pergunta que sempre me fazem ilustra perfeitamente essa questão: ‘É pecado (insira uma ação questionável aqui)?’ E eu pergunto: Isso importa? Quem se importa de verdade? Permita que eu esclareça. Que diferença faz na sua vida saber se uma ação em particular é ou não pecado? Como isso melhora a sua caminhada com Cristo?” (McDonald).
Nada poderia ser mais falso. Essa afirmação simplesmente não é encontrada nas Escrituras. A Bíblia nos exorta consistentemente a não pecar. As palavras do próprio Cristo contêm a frase “vá e não peques mais”, embora, em comparação com Seus outros dizeres, esse seja talvez o menos citado, se é que é citado, entre aqueles que difamam a teologia da perfeição. Você não pode deixar de pecar sem conhecer o que é pecado. No entanto, para ser justo, preciso mostrar que nosso blogueiro continua com esta citação: “Ame, e faça o que você quiser”, Santo Agostinho (Ibid.). Essa é uma das minhas citações favoritas de todos os tempos. Ele está dizendo que se amamos em primeiro lugar e acima de tudo, e que se tudo o que vem depois é proveniente desse amor, então não podemos errar. Pense — se você ama seus filhos, seu cônjuge ou seus amigos, por que você lhes causaria dano?
Não causa surpresa que a teologia agostiniana pareça ser o ímpeto por trás de muitos dos sentimentos antinomianos [contrários à lei] na igreja cristã de hoje. A declaração de Agostinho não é rasgadamente errada, mas é frequentemente citada sem outras considerações bíblicas. Por exemplo, o que é “amor”? 
Esqueça Agostinho; as Escrituras delineiam claramente como é que o verdadeiro amor age: “Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te”. (Apocalipse 3:19).
Você não pode ter o verdadeiro amor sem a lei, pois o amor é o cumprimento da lei. Imagine um marido que dorme por aí com outras mulheres argumentando que não há nada de errado nisso porque ele ama sua esposa acima de todas as outras. Essa é a mesma lógica de quando as pessoas argumentam que o amor abole a lei. Essa lógica falida não é encontrada nas Escrituras e é na verdade oposta ao conceito da salvação. Como? Porque a salvação é a libertação não somente das consequências do pecado, mas libertação do próprio pecado. Portanto, identificar o pecado é crucial. 
Felizmente, a tarefa é simples. Qualquer coisa aquém do padrão que Deus estabelece é pecado. Pecado é uma escolha. Sim, compreendo que Agostinho e os reformadores como Lutero e Calvino se atinham firmemente à sua crença no pecado inato (pecado original). Mas, se levamos esse pensamento à sua conclusão lógica, ele responsabilizaria a Deus por nossos pecados, e não a nós.
Quando damos ao pecado outra definição além de transgressão da lei, encontramos rapidamente desculpas para quebrar a lei. “Pecado ancestral” é uma dessas desculpas. “Nasci pecando; logo não posso parar de pecar.” Esse argumento é oposto à qualquer coisa ensinada nas Escrituras e tem seu fundamento no raciocínio humano falível e apela para experiências emocionais. Devemos ser indivíduos de mente sóbria, e não seres emocionais, sem razão.
A escolha está por trás do pecado. Paulo escreve: “Tudo que não é de fé é pecado” (Romanos 14:23). Aplicar a fé é uma escolha. Tiago declara: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4:17). 
Novamente, a escolha está envolvida. No final, podemos apenas concluir que pecado é nossa culpa, não de Deus. Nosso pecado é nossa culpa, não de Adão. Sabendo que pecado é uma escolha, existem ainda elementos que herdamos por nascimento. A natureza pecaminosa é passada de geração a geração e é algo com que lutaremos todos os dias até a glorificação no segundo advento. Mas ter esta natureza não é pecado, pois Cristo veio na semelhança da carne pecaminosa e nunca pecou (Romanos 8:3,4).
De volta à perfeição. Muitas vezes a definição de perfeição é confundida não somente por oponentes, mas também por proponentes. Perfeição não deveria ser vista como algum estágio que ao ser alcançado não deixa mais espaço para o crescimento. Os seres não caídos e anjos que Deus criou não são tão absolutamente perfeitos quanto Deus. Perfeição é uma escalada sempre ascendente para ser como nosso Redentor. Essa escalada é o que Paulo quis dizer quando se referiu a algo que ele não havia ainda alcançado, mas que estava em constante busca (Filipenses 3:12). Mesmo quando alguém guarda a lei em sua totalidade (isto é, ele não está pecando através da nossa definição estabelecida de pecado) ele deve permanecer na busca da perfeição. O jovem rico se afastou da vida eterna porque se recusou a ir acima e além para alcançar a perfeição. Cristo sabia que ele não guardava plenamente os mandamentos. Alguém pode guardar a lei exteriormente e assim mesmo violar seus princípios inteiramente. Cristo perguntou: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-Me” (Mateus 19:21). Entender teologia corretamente não é o único passo para refletir Cristo; um elemento mais abrangente é aplicar o próprio Cristo em nossas vidas e ações. Ao aceitarmos a definição de perfeição proposta por Cristo, poderemos encontrar nas Escrituras o fundamento de como ela pode ser alcançada.
Perfeição é um atributo alcançável e é requerida de todos que professam a Cristo. Mas então, se é alcançável, como é alcançável? Não por obras, com certeza, mas pela fé, como o apóstolo Paulo frequentemente aponta. A luta de Paulo pela perfeição não era baseada somente na sua débil força. Isso fez com que o apóstolo escrevesse: “A minha graça te basta, porque o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Coríntios 19:2). Para Paulo, a chave para a força que vence o pecado é a nossa fraqueza. Isso mesmo, a chave para a nossa perfeição é a nossa imperfeição. Não parece lógico, certo? Vai fazer perfeito sentido em um minuto.
Em termos bíblicos, “graça” não é somente perdão dos pecados, mas poder para nos impedir de pecar. Esse princípio pode ser demonstrado da maneira mais simples no perdão de Cristo à mulher pega em adultério seguido do pedido para que “não peques mais” (João 8:11). Portanto, para que a graça abunde, a pessoa precisa estar disposta a admitir sua fraqueza e confessar seus pecados.
Isso resulta em plena purificação (Wesley, 176). Admitir que somos imperfeitos nos permite vestir o dom da perfeita justiça de Cristo que nos permite “andar como Ele andou” (1 João 2:5 e 6). Com essa visão, é dada a ênfase apropriada à substituição e exemplo de Cristo. Na maneira mais simples que podemos colocar, Deus requer de nós obediência perfeita à Sua lei, mas o que Deus requer Ele também provê na vida e na morte de Seu Filho, Jesus Cristo. Essa provisão permite que a justiça da lei se cumpra em nós, “que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Romanos 8:4).
Essa verdade bíblica maravilhosa é o que motivou Elliot J. Waggoner e Alonzo T. Jones, dois jovens ministros adventistas, a pregarem o conceito que conhecemos hoje como “justiça pela fé” durante a Assembleia da Associação Geral de Mineápolis em 1888. A justiça de Cristo imputada (do grego “logizomai”) em nós nos permite guardar Sua lei perfeitamente (Gane, 6-9).

Para nós, a justiça de Cristo não é somente uma declaração legal, mas é também a transformação de nossa vida. É por isso que João pôde escrever: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” (1 João 3:9). No evangelho de João, é dito a Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo” (João 3:7). Nascer de novo é ter o dom de Cristo habitando em nós, Sua justiça sobre nós o tempo todo.

Sim, nós cometemos faltas. Nós falhamos. Mas ao percebermos isso e nos agarrarmos em nosso Salvador, Ele nos perdoará com os braços abertos e nos dará força em tempo de necessidade (veja Romanos 5:20, 6:1-2 e 1 João 1:9). Nossa confiança em Cristo não é definida por um gesto que acontece somente uma vez durante a nossa conversão; é descansar em Sua força diariamente. O perfeito amor é revelado quando submetemos a nossa vontade e descansamos nAquele que é amor. O perfeito amor cumpre a lei perfeita. Cristo é nosso substituto e exemplo combinados, lei e graça exemplificadas. Em resposta à afirmação de que aqueles que pensam que estão salvos do pecado dizem que não precisam dos méritos de Cristo, John Wesley respondeu: “Eles dizem exatamente o contrário. Sua linguagem é: ‘A cada momento Senhor, quero os méritos de Tua morte'” (Wesley, 169)!
Que essa seja nossa súplica contínua.
1. Wesley, John. The Works of the Reverend John Wesley, A. M. p. 176.
2. McDonald, Stuart. “Why Understanding What Sin Is Does Not Matter”.
3. Veja Romanos 5:20, 6:1-2 e 1 João 1:9.
4. Gane, Erwin R. “An Examination of the Book: Right With God, Right Now by Dr. Desmond Ford”, p. 6-9.
5. “For in that He Himself hath suffered being tempted, He is able to succour them that are tempted”Hebrews 2:18, KJV.
6. Wesley, John. Christian Perfection, p. 169.
Por Lemuel Sapian

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