Fazer o bem pode ser perigoso

Acompanhando meu esposo em uma viagem a trabalho em
Fortaleza, CE, hospedamo-nos em um hotel localizado em uma região bem central e
movimentada, praticamente em frente à praia. Logo no início da semana, resolvi
conhecer a cidade sozinha, já que meu esposo só teria folga no final de semana.
Como não sabia se encontraria algo apropriado para comer, coloquei um pacote de
biscoitos na bolsa e saí. Quase em frente ao hotel, vi um jovem morador de rua
deitado na sarjeta. Mudei de calçada. “E se ele der um pulo e me assaltar?”,
pensei, “melhor manter uma distância segura”.

Naquela, manhã, porém, antes de sair do quarto, orei para
que o Senhor me concedesse oportunidades de testemunhar e alcançar algum
coração, mas jamais me passou pela mente que isso pudesse acontecer com um
jovem como aquele. “E se ele for um maníaco drogado? Sim, quero testemunhar,
mas só para quem EU achar conveniente”. Quanta presunção! Quanto orgulho! Traçando
um paralelo com a parábola do bom samaritano, narrada por Jesus, eu estava
pronta para agir como o fariseu – arranjar mil justificativas para ignorar a
necessidade do próximo e seguir meu próprio caminho. Mas bendito seja o Senhor
que ainda assim teve misericórdia de mim e insistiu em trabalhar no meu coração
de pedra.
“Volte e pergunte ao rapaz se ele aceita um pacote de
biscoitos, aquele que você colocou na bolsa”, foi a impressão que me veio à
mente. 

“Voltar e falar com aquele rapaz? Será que é o Espírito
Santo falando comigo? Ah, não pode ser, aquele rapaz tem todo jeito de ser perigoso”,
raciocinei com minha mente totalmente destituída da compaixão de Cristo. 

“Volte e ofereça os biscoitos”, “ouvi” novamente.

A impressão em minha mente foi tão forte que decidi voltar, obviamente
pedindo a proteção, caso estivesse enganada (eu realmente estava com receio).
Aproximei-me do rapaz e perguntei quase que já virando as costas:
– Você quer biscoito?
Ele se levantou vagarosamente e respondeu:
– Aceito sim, tia, obrigado.
O olhar daquele rapaz ao falar comigo me comoveu. Nele pude
ler: “Alguém me enxergou aqui!” Mesmo assim, estava pronta para partir, afinal,
raciocinei, “já cumpri meu dever” (meu coração é duro mesmo!). Mas o Espírito
Santo queria que eu fosse um pouco mais além. “Pergunte o que ele tem vontade de comer”, foi a impressão
que me veio à mente.
Nesse instante, o Espírito Santo me ajudou a baixar ainda
mais a guarda e repeti a pergunta:
– O que você tem vontade de comer?
Tinha certeza de que aquele jovem iria pedir alguma
guloseima, como pastel, lanche, coxinha, bolacha recheada ou algo do tipo.
– Uma quentinha, tia.
Senti um nó se formar em minha garganta. Quentinha no Ceará
significa marmitex ou prato feito. Aquele jovem queria comida de verdade.
Estava morrendo de fome. Você sabe quanto custa uma quentinha lá? Cinco reais!
Senti vontade de chorar. De todas as coisas que ele podia ter pedido (e eu
estava disposta a comprar), ele pediu uma quentinha – feijão com arroz.
Prometi que traria a quentinha dali algumas horas e
perguntei onde o encontraria.
– Eu moro aqui, tia. Estou sempre aqui ou embaixo daquele
toldo lá – disse apontando para um restaurante noturno.
Saí com o coração apertado pedindo perdão a Deus por não
sentir compaixão de meus semelhantes criados à Sua imagem que se encontram em
situações como aquela.
Em minhas andaças naquele dia, comprei a quentinha e
acrescentei algumas guloseimas, que achei que ele gostaria de saborear. Mais
tarde, encontrei o rapaz no mesmo local e entreguei a comida.
– Ah, tia, muito obrigado.
– Qual o seu nome? – perguntei.
– Tiago!
– Tiago, vou ficar aqui quinze dias. Durante esse período
sua quentinha está garantida.
– Ai, muito obrigado, tia – respondeu com um olhar alegre.
E assim aconteceu. Durante o período em que permaneci
naquele hotel, diariamente levava a quentinha para o Tiago. Em outros momentos
que nos cruzávamos pela rua, ele sorria e acenava para mim e eu para ele. Ao
longo dos dias fui conhecendo um pouco mais a respeito daquele moço. Soube que
tinha dezenove anos e que era conhecido do pessoal do hotel, que informou que ele
era um menino tranquilo e que conseguia um trocado ou outro lavando para-brisas.
O banho que tomava era de mar e dormia na calçada. Fiquei com muita pena. Não é de admirar que pessoas que vivem em situações semelhantes busquem os narcóticos e o álcool para fugir da realidade.
No final de semana, entrei em contato com a igreja local
informando a respeito do Tiago e avisando que talvez ele aparecesse  para pedir ajuda, já que lhe daria o endereço
da igreja e o nome do responsável.
No dia de partir, fiz uma sacola com alguns alimentos e uma
peça de roupa, escrevi em um pedaço de papel o endereço e o telefone da igreja
e fui me despedir do Tiago.
– Tiago, estou indo embora, mas aqui está um endereço em que
há pessoas que poderão ajudá-lo.
– Eu não sei ler, tia.
– Mas você pode pedir para alguém ler e chegar até lá a pé,
é perto.
– Tia – disse com carinho –, obrigado, mas não fique preocupada
comigo. Boa viagem!
Fui embora na esperança de que ele decidisse procurar ajuda.

Passaram-se dois anos e estou no momento de volta ao mesmo
hotel. Na chegada, observei a rua para ver se avistava o Tiago no local
costumeiro. Nada. Mais tarde, reconheci um mensageiro que havia nos atendido
dois anos antes e perguntei sobre o Tiago. A informação me deixou triste.
– O Tiago faleceu. Teve uma parada respiratória. Ele foi
levado ao hospital, mas já era tarde demais.
Essa notícia me fez refletir muito. O que meu Exemplo e
Modelo teria feito em meu lugar há dois anos? Além de satisfazer a necessidade
física, penso que o grande Mestre teria sentado ao lado do Tiago na sarjeta e
desdobrado na linguagem daquele rapaz o plano da redenção, a esperança de uma
nova vida e o alto valor que ele tinha aos olhos do Céu. Em vez de entregar um
pedaço de papel com o endereço, quem sabe teria levado o Tiago até a igreja,
apresentado o rapaz ao responsável e feito todos os arranjos para que ele
tivesse a oportunidade de mudar de vida. Em face do grande conflito, comprar
algumas quentinhas realmente foi o mínimo do mínimo do que eu poderia ter
feito.
Sei que Deus utiliza muitos meios para alcançar o coração
humano. Sei que Ele usou outros instrumentos para demonstrar Seu amor ao Tiago.
Creio que a morte ocorre apenas quando a pessoa já teve a oportunidade de
decidir em que lado está no grande conflito – independente de quanta luz possui
sobre o tema – e realmente desejo que o Tiago tenha selado seu destino eterno
ao lado de Cristo.
Não sei dizer se de alguma forma o coração do Tiago foi
alcançado pelo contato que tivemos, mas sei que o Espírito Santo usou aquele
rapaz para tocar o meu coração. Nessa história, pude perceber a grande
espessura da parede de pedra que carrego no peito e o quanto preciso
submeter-me ao poder regenerador de Jesus.
“Um novo mandamento vos dou”, disse Cristo, “que vos ameis uns aos outros; assim como Eu vos amei a vós” (João 13:34). Esse mandamento não se restringe apenas aos familiares e amigos, pois estes amamos
naturalmente. Esse mandamento engloba a todos, incluindo pessoas como o Tiago.
Neste mundo regido pelo príncipe das trevas, realmente fazer
o bem pode ser perigoso, mas sob a orientação do Espírito Santo, não há o que
temer. Podemos ser uma luz em meio às trevas, um bálsamo aos que sofrem
terrivelmente com as consequências do pecado.
Que Deus nos ajude a amar o próximo como a nós mesmos e a
seguir o exemplo dAquele que tudo deixou para nos salvar da perdição. Graças a
Ele que não se contentou em apenas satisfazer às nossas necessidades físicas,
mas entregou a vida para que tivéssemos a oportunidade de ser restaurados à
imagem de Deus e fazer parte da família celestial. Que o nome de Cristo seja
louvado!

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